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Educação antirracista como ponte para o futuro

O que faz andar a estrada? É o sonho.
Enquanto a gente sonhar, a estrada permanecerá viva.
É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.
(Mia Couto – Terra Sonâmbula)

Pensar o futuro é tarefa à qual quase todos nós educadores nos dedicamos. Essa preocupação se fundamenta, ou pelo menos deveria se fundamentar, na seguinte assertiva: pensar o futuro pressupõe agir no presente. Portanto, se faz importante iniciar esse texto com uma afirmação: só é possível falar em futuro educacional se ele for absolutamente comprometido com as práticas antirracistas.

As evidências têm mostrado que caminhamos ainda hoje muito timidamente na direção desse objetivo e que as desigualdades socioeducacionais existem e persistem como grande mazela da sociedade brasileira (IBGE, 2019).  Embora essas mesmas evidências também reconheçam a ampliação do debate público sobre a questão, o maior interesse em compreender os desafios envolvidos na perpetuação do racismo – bem como as possibilidades de atuação para superá-los – e um incremento no investimento financeiro em iniciativas e instituições que atuam em diferentes frentes com vistas à promoção da equidade racial nos últimos dois anos, ainda há muito o que se fazer e caminhar na direção de um futuro cuja marca seja a democracia e a igualdade. Para a transformação nesse cenário de iniquidades, a atuação em múltiplas frentes já se demonstrou necessária e urgente. Dentre elas, a educacional se configura como uma das mais proeminentes e estratégicas.

A problemática do racismo e da educação antirracista como questões a serem pensadas – e reconhecidas – amplamente pela sociedade emergiu como necessidade a partir de 2020, momento no qual o assassinato de  George Floyd pela polícia estadunidense levou milhares de pessoas às ruas e colocou o racismo no centro do debate público. Nesse momento as discussões sobre as questões raciais deixaram de ser quase que excluisvas dos ambientes de militância política dos movimentos negros e de acadêmicos dedicados aos temas atinentes às relações raciais. Deu-se início, portanto, a uma corrida pela busca de informações e o fomento à construção de propostas concretas que visassem mitigar os efeitos deletérios do racismo na sociedade. Essas demandas passaram a fazer parte de uma série de revindicações, tanto de negros quanto de uma parcela da branquitude que, nas elaborações dos teóricos dedicados a pensar as relações raciais no Brasil, seria chamada de branquitude crítica (CARDOSO, 2010).

O primeiro desafio nesse processo foi, e ainda é, sistematizar e publicizar dados que evidenciassem e permitissem o reconhecimento de que nossa sociedade é profundamente marcada pelas desigualdades raciais e isso se reflete de maneira bastante contundente nos contextos educacionais mais variados. Essas desigualdades se expressam desde a diferença de representação dos grupos populacionais negros nas posições de liderança nos setores públicos ou privados da educação, até a diferença de aprendizagem entre crianças negras e não negras. No contexto educacional, parte do problema começa com a inexistência de um censo robusto que viabilize a produção de um retrato fidedigno dos diferentes grupos raciais na educação, visto que, mesmo diante da inserção do campo cor/raça no censo escolar desde 2005, ainda existe um grande contingente de profissionais da educação, bem como familiares e estudantes, que não registram esse dado no levantamento.

Então, eis que é preciso nos interrogar: como pensar e propor um futuro para a educação sem que tenhamos sequer um entendimento aprofundado do nosso presente? Como esperançar esse futuro, no sentido freireano do termo, sem compreender radicalmente o problema e propor soluções estruturadas e sistêmicas?  Como é possível produzir um pacto coletivo de educadores, para que estejam permanentemente mobilizados a interrogar as crenças que orientam suas práticas e, assim, tenham condições de direcioná-las verdadeiramente à construção de uma sociedade democrática e justa? Como olhar e interpretar as políticas, os programas e as práticas educativas buscando brechas que permitam atuar no sentido de promoção de uma educação que tome as diferenças como um valor? E, uma vez reconhecida essa perspectiva das diferenças como um valor, como atuar com intencionalidade pedagógica e responsabilidade na promoção de ações educativas verdadeiramente inclusivas? Como tornar a escola o espaço do encontro e do futuro?

Do ponto de vista das políticas, além das leis 10.639/03 e 11.645/08 que instituíram a obrigatoriedade da inserção da cultura afrobrasileira, africana e indígena nos currículos, a BNCC traz algumas pistas e abre algumas brechas – sobretudo na descrição de algumas das competências gerais e específicas de algumas áreas. Contudo, o documento que orienta a elaboração dos currículos e projetos político-pedagógicos das escolas não aponta diretrizes concretas para o fortalecimento e/ou adoção da abordagem intencional e sistêmica para tratar das questões de diversidade e educação antirracista no currículo e nas práticas pedagógicas dos docentes. Este é um importante ponto de aprimoramento nas revisões do documento que estão previstas. É mais uma perspectiva de futuro que precisa ser pensada à luz do antirracismo.

Outro grande desafio, mas que também pode se configurar como oportunidade, é a formação de educadores, seja ela inicial ou continuada. É muito recente – e ousaria dizer parcial  – o reconhecimento da existência do racismo estrutural e seus efeitos nos processos de ensino e aprendizagem e isso fez com que houvesse muita resistência na revisão dos processos de formação de educadores, bem como dos materiais que dão suporte à sua prática, como livros didáticos, por exemplo. Ao contrário, muitos desses dispositivos quando não invisibilizam esses grupos minorizados e os conhecimentos produzidos por eles, reforçam estereótipos e estigmas sobre eles.

Por essa razão, é preciso (re)pensar os desafios e possibilidades para as travessias necessárias aos professores e professoras que estão nas universidades formando educadores e se afirmam comprometidos com a virada epistemológica que implica a promoção de uma educação antirracista. É preciso, fundamentalmente, agir para promover essas travessias e a articulação entre os diferentes campos de produção de conhecimento, inclusive o prático, que costuma ser tratado como de menor valor. Para construir futuro, é preciso que estes conhecimentos ganhem proeminência nos espaços educativos e promovam uma efetiva integração entre saberes e práticas que concorrem para a concretização dos princípios de criticidade, emancipação e cidadania para todos e todas, indistintamente.

A caminhada ainda é longa, mas os primeiros e fundamentais passos já estão sendo dados por muitos educadores e organizações comprometidas com essa pauta. Eliminar as iniquidades presentes no contexto educacional é condição para a formação de uma sociedade verdadeiramente democrática. Educar para o antirracismo é construir futuros, é pavimentar um caminho verdadeiramente suave para que todos e todas possam caminhar.

 

Escrito por Cléa Ferreira – Coordenadora do Centro de Formação

 

Referências

CARDOSO, Lourenço. Branquitude acrítica e crítica: a supremacia racial e o branco anti-racista. Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, Niñez y Juventud [online]. 2010, vol.8, n.1, pp.607-630.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira: 2019 / IBGE, Coordenação de População e Indicadores Sociais. – Rio de Janeiro: IBGE, 2019.

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